sexta-feira, 6 de abril de 2012

A nova economia ampliando o domínio europeu - parte 2 de 5

A nova economia ampliando o domínio europeu -

parte 2 de 5

A frota liderada por Pedro Álvares Cabral não fora organizada originalmente com a missão de “descobrir” ou conquistar o Brasil. Na verdade, esse empreendimento tinha como objetivo maior explorar as riquezas orientais e consolidar a presença portuguesa em território indiano.

Isso também não significa dizer que a chegada ao Brasil, oficialmente em 22/04/1500, tenha sido casual ou fruto de condições adversas de navegação como ainda citam certos manuais. Sabe-se hoje que os portugueses já tinham conhecimento do território brasileiro, e isso é facilmente observado nas disputas diplomáticas entre os países ibéricos, sobretudo no episódio do Tratado de Tordesilhas, que ocorreram seis anos antes da “descoberta” oficial.

O fato é que ao chegar no Brasil em 1500, os portugueses experimentaram certa frustração: não encontraram, pelo menos no início das explorações, os tão cobiçados metais preciosos como os vizinhos espanhóis já encontravam em abundância em suas colônias americanas. Além disso, e para aumentar a frustração, os portugueses não encontraram também em terras brasileiras algum produto cultivado pelos indígenas4 que pudesse ser incorporado na economia europeia e que desse lucro para a burguesia lusitana, na mesma medida que as especiarias orientais estavam dando.

Por esta razão o território brasileiro foi relegado a um segundo plano, dentro dos objetivos exploratórios dos portugueses. Estavam eles mais animados com as conquistas militares no Oriente e sua conseqüente exploração. Conquistaram Goa, na Índia em 1510, Málaca (Malásia) em 1516, chegam em Macau na China e até no Japão em 1543.

Portanto, as ações oficiais dos portugueses, de 1500 a 1530, em nossas terras se limitaram a expedições de reconhecimento lideradas por Gaspar de Lemos e Gonçalo Coelho e concessão para a exploração e comércio de uma madeira de onde se tirava um corante vermelho que rendeu algum lucro na Europa: o pau-brasil.

Sendo assim, é importante destacar que aí já se estabeleceu uma relação de trabalho com os índios. Era o escambo, que não pode ser confundido com trabalho escravo, uma vez que, os nativos cortavam e transportavam a madeira para as feitorias ou navios e recebiam em troca objetos como facões, panelas, espelhos, entre outros.

Essa postura portuguesa quanto ao Brasil só mudou efetivamente a partir de 1530 porque os lucros com as especiarias orientais já não eram tão vultosos, em função da concorrência com outras potências europeias. Também havia um risco grande e real de o Brasil ser conquistado por outros países, principalmente pela França, que já havia mantido contatos com os índios e explorado a costa leste brasileira com ataques piratas.

Portanto, a mentalidade portuguesa muda rapidamente para uma postura de ocupar efetivamente o Brasil com dois objetivos principais: aproveitar a terra para nela se montar uma estrutura de exploração mercantil que desse lucro ao Estado português e ao mesmo tempo colonizar para não perder a colônia para nações inimigas.

Deste raciocínio é que se entende o envio da primeira missão colonizadora chefiada por Martim Afonso de Souza que implantou o primeiro modelo de administração colonial, as capitanias hereditárias, funda as primeiras vilas e traz as mudas daquele que seria o primeiro grande empreendimento agrícola na colônia: a cana de açúcar.

Para os historiadores, no entanto, a maior das viagens marítimas foi aquela patrocinada pela coroa espanhola, através do genovês Cristóvão Colombo que chegou à América em 1492. Toda essa importância reside no fato de que se trata da conquista de um gigantesco continente até então nada conhecido nas cartas geográficas ou documentos da época.

Do ponto de vista mercantilista, o sistema econômico vigente, essa conquista se reveste de maior importância ainda por significar um imenso território a ser explorado em suas riquezas naturais (ouro, prata, pedras preciosas, peles, madeiras, tabaco, entre outros), ao mesmo tempo em que, num futuro próximo, se constituiria em enorme mercado consumidor dos produtos manufaturados europeus, o que atendia em cheio os objetivos das balanças comerciais europeias.

Soma-se a tudo isso o fato de que o Novo Mundo, pelas condições naturais de clima e solo, passava a produzir culturas introduzidas pelos europeus, como o algodão e a cana de açúcar, que foram tomando conta da paisagem das Américas em substituição a cobertura vegetal nativa e a custa de mão de obra escrava, que ao longo de 400 anos de exploração colonial dizimou cerca de 80 milhões de índios e negros.

4 Os índios brasileiros, como é sabido, viviam em estagio econômico muito diferente dos europeus. Viviam da caça, pesca e plantavam apenas o necessário para o sustento da aldeia ou tribo. A propriedade e o trabalho eram coletivos e não haviam relações comerciais entre eles. Daí a dificuldade que os portugueses encontraram para tirar da atividade econômica dos índios algo que pudesse interessar ao mercantilismo europeu. N.A.

A nova economia ampliando o domínio europeu - parte 1 de 5

A nova economia ampliando o domínio europeu -

parte 1 de 5



Com o advento do capitalismo comercial, em substituição ao modo de produção feudal, e com o surgimento das nações, substituindo os antigos particularismos feudais, o mundo europeu caminhava para uma mudança radical em todos os segmentos humanos.

Com o poder real, agora centralizado e a organização dos Estados Modernos, os países europeus passam a se preocupar em implementar ações que dinamizem essa economia, que agora é mais dinâmica e de mercado. Essas ações giram em torno de um grande objetivo geral: o acumulo de metais preciosos, chamado genericamente de metalismo.

Com isso, o metalismo passa a ser o elemento que diferencia a riqueza entre as nações.

Para alcançar esse objetivo geral era necessário um rigoroso controle e intervenção direta do governo nos investimentos, em associação com a burguesia, na arrecadação de impostos e nos gastos com administração e efetivos militares.

Toda essa preocupação visava atingir uma balança comercial favorável (exportações maiores do que as importações). Quanto mais favorável, maior a entrada de metais preciosos para os cofres da realeza, e por consequência, maior poder e influência política no continente.

Com esse modelo econômico, que chamamos de capitalismo comercial ou mercantilismo, os países europeus passam a adotar estratégias mais agressivas de ampliação de seu comércio e poder. Como já faltavam metais preciosos na Europa e a política mercantilista, por sua dinâmica própria, exigia cada vez mais novas áreas que pudessem ser exploradas comercialmente, esses países passam a investir em comércio de longa distância para atender a fome por metais preciosos.

Sendo assim, as cidades-estado de Gênova e Veneza, no norte da Península Itálica, começaram a praticar esse comércio de longa distância transportando as especiarias (pimenta do reino, gengibre, noz moscada, entre outros), artigos de luxo (tecidos, seda, tapetes), metais e pedras preciosas.

Esses produtos vinham das chamadas Índias Orientais, eram embarcados pelos mercadores genoveses e venezianos em Constantinopla (atual Istambul na Turquia) e via Mar Mediterrâneo chegavam até a Europa, onde eram comercializados por terra em rotas e nas feiras comerciais localizadas em todo interior do continente.

Para relembrar, aí residiu a enorme contribuição das Cruzadas, já mencionadas em nosso estudo, pois foram os soldados cruzados os primeiros a trazerem esses produtos até a Europa e foi também uma Cruzada, a quarta, que libertou o Mar Mediterrâneo do domínio árabe em 1200 e liberou essa antiga rota comercial que liga o Oriente com o Ocidente.

Com isso, o mar Mediterrâneo acabou se tornando monopólio dos mercadores italianos. Neste caso, as outras nações, também interessadas nos produtos orientais, passam a procurar outros caminhos para se chegar às Índias.

É nesse contexto que se iniciam então as chamadas Grandes navegações, ou Expansão ultramarina, processo que possibilitou ao homem europeu a conquista e exploração de colônias na Ásia, África e América, que passou a ser chamado de Novo Mundo, pois até o século XV não era conhecido pelos Europeus.

Os portugueses, que foram pioneiros nas grandes navegações, contavam já com uma monarquia centralizada, uma burguesia capitalizada e disposta a investimentos, bem como possuíam uma posição geográfica favorável para as navegações, tinham tecnologia de ponta para construção de embarcações e instrumentos de navegação, possuíam um centro de estudos (Sagres) para onde confluíam navegadores, armadores, e geógrafos de toda Europa, além de desfrutarem de um período de paz, que é elemento fundamental para empreendimentos de grande porte como foram as navegações.

Em 1415, quando os portugueses iniciaram suas conquistas na África, Inglaterra e França ainda combatiam na guerra dos 100 anos, a Espanha estava envolvida com a expulsão dos árabes de seu território e a Holanda ainda era uma província dominada pelos espanhóis (a independência dos holandeses só viria no século XVI).

Com isso, Portugal explorou durante quase todo o século XV a costa oeste da África, alcançando seu extremo sul em 1488.

Dez anos depois conseguiu alcançar a Índia, atingindo seu grande objetivo que era o de descobrir uma nova rota comercial. Para se ter noção da importância econômica da descoberta desta rota, Vasco da Gama, o navegador português responsável pela frota que aportou em Calicute (costa oeste da Índia), voltou com suas caravelas abarrotadas de pimenta do reino que deu lucros à coroa portuguesa na ordem de 6.000%.

A contínua exploração que os portugueses empreenderam na África e na Índia deu-lhes a condição de nação europeia mais rica durante a segunda metade do século XV. É nesse contexto que os portugueses, após organizar uma segunda expedição para as Índias, oficializam o reconhecimento do Brasil em abril de 1500.


O nascimento de uma nova economia - parte 4 de 4

O nascimento de uma nova economia - parte 4 de 4

Para a burguesia esse apoio era importante. Com o poder centralizado na figura do rei, os pesos e medidas, que em muitas regiões eram diferenciados de acordo com o costume local, foram padronizados, o que facilitava sobremaneira as transações comerciais, principalmente as de longa distância. Com a figura real, centralizava-se também o pagamento de impostos, o que, em teoria, possibilitava a formação de exércitos nacionais, necessários para garantir maior segurança a seus habitantes, o que também era muito interessante para os comerciantes.

Ao mesmo tempo, para o rei, a associação com a burguesia era extremamente vantajosa, porque significava maior arrecadação de impostos, o que além de propiciar a formação de efetivos militares e possibilitar uma melhor administração de seus territórios, aumentava seu poder em relação, principalmente, aos Senhores Feudais que já estavam em franca decadência em função das Cruzadas e da perda sobre a jurisdição de varias cidades instaladas em seus feudos. Em suma, estava consolidada a parceria rei e burguesia, essencial para a formação e constituição dos Estados Modernos na Baixa Idade Média como Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Holanda.

Com isso, progressivamente foram sendo incorporados à economia europeia elementos novos, mais dinâmicos e que se distanciavam em muito da economia feudal. Pouco a pouco foram se estabelecendo categorias como lucro, salário, preço, juros, enfim, o capitalismo, ainda em sua fase comercial, começa a substituir o modo de produção feudal. Neste caso, o que apressou sobremaneira o processo de esgotamento do sistema feudal foram crises que ocorreram ao mesmo tempo durante o século XIV.

Embora as técnicas agrícolas tenham evoluído a partir do século XI, com o passar dos anos constatou-se que eram insuficientes e ainda rudimentares para atender o crescimento populacional verificado, especialmente, com uma melhor distribuição dos alimentos via comércio.

Bastava algum período de seca ou estiagem muito longo para que a fome passasse a conviver com a população europeia, sobretudo a população camponesa. Especialmente no período entre 1315 e 1317 a fome crônica se abateu sobre a população por conta das baixas colheitas em função dos baixíssimos índices de chuva no período, época que passou a ser denominada de a Grande Fome.

O que contribuiu em muito com a fome crônica no século XIV foi um dos conflitos armados mais longos da história: a Guerra dos Cem anos, envolvendo França e Inglaterra. Apesar do nome, essa guerra durou mais de cem anos (1337 a 1453) e os principais combates ocorreram na Europa Ocidental, destruindo vastos campos de plantações, paralisando atividades comerciais de muitas feiras, além de acabar com muitas vidas. À guerra e à fome, agregou-se um terceiro e fulminante elemento, ocorrido a partir de 1348, muito em função dos dois anteriores: a Peste Negra.

Vinda muito provavelmente do Oriente através de navios genoveses, esse doença se alastrou de forma muito rápida na Europa em função da fraqueza de corpos castigados pela fome e guerra, sobretudo porque os seus principais transmissores, os ratos, se proliferavam muito facilmente em razão da sujeira e lixo característicos das cidades medievais. Foi um desastre demográfico poucas vezes visto em toda a historia. Calcula-se que, durante todo o século XIV, tenha vitimado algo em torno de 25 milhões de habitantes. Com isso a população europeia retraiu-se drasticamente, praticamente voltou ao numero de habitantes que tinha no século XI, em torno de 45 milhões de habitantes.


Ilustração 4: cena típica de uma cidade que sofria com a peste negra. Fonte: http://bo.kalipedia.com/graficos/peste-negra.html?x=20070417klpcnavid_18.Ges

Pandemias dessa natureza, por razões desnecessárias de explicar, atingem a população mais pobre, que no contexto atualmente abordado era, em sua gigantesca maioria, formada por servos. É importante destacar esse fato, pois a vida dos que sobreviveram, que já era extremamente sofrida, passou a ser mais complicada em função da superexploração de sua força de trabalho e cobrança de impostos (agora em dinheiro e não mais in natura ou em serviços).

O raciocínio para entender esse fato é relativamente simples: os senhores cobravam o mesmo nível de trabalho e impostos arrecadados de uma quantidade de servos que em muitos feudos reduziu-se pela metade em função das guerras, fome e epidemias.

Esse processo desencadeou, em grandes regiões da Europa, revoltas gigantescas de camponeses famintos e cansados da superexploração de seus senhores.

Na França, por exemplo, essas revoltas receberam o nome de jacqueries e a mais conhecida delas ocorreu em 1358, quando castelos foram violentamente invadidos, a nobreza feudal atacada, plantações e feiras destruídas. Calcula-se que a repressão às jacqueries tenha matado em torno de 20 mil servos.

Com esse quadro caótico composto por guerras, doenças, fome e revoltas dos pobres, reforça-se cada vez mais a impressão que se vivia em um mundo sem direção e sem autoridade. Junto a essa impressão vai se reforçando também a ideia de que apenas os reis, com sua autoridade (dada por Deus, segundo a crença da época) e poder unificados é que poderiam reorganizar a vida social e econômica dessas regiões.

Estavam dadas todas as condições para a formação dos Estados Modernos, com poder centralizado nas mãos dos reis, e com auxílio essencial da burguesia, classe social que se tornava cada vez mais influente a partir da Baixa Idade Média.

O nascimento de uma nova economia - parte 3 de 4

O nascimento de uma nova economia - parte 3 de 4

Para o historiador Leo Huberman, a importância das Cruzadas era tão grande que

..ajudaram a despertar a Europa de seu sono feudal, espalhando sacerdotes, guerreiros, trabalhadores e uma crescente classe de comerciantes por todo o continente; intensificaram a procura de mercadorias estrangeira; arrebataram a rota do Mediterrâneo das mãos dos muçulmanos e a converteram outra vez, na maior rota comercial entre o oriente e o Ocidente, tal como antes. 3

Com a retomada do comércio, seja por fatores internos como externos, aumentaram também os problemas de segurança, o que fez com que vários comerciantes construíssem muralhas em torno das feiras, que por sua vez estavam formadas em torno dos castelos.

Como essas construções adquiram aspectos de fortaleza, elas passam a ser denominadas de burgos (fortaleza em germânico), e seus habitantes, os antigos servos, que já não viviam mais em suas habitações no manso servil e que agora se ocupam de funções comerciais, passam a serem conhecidos como burgueses. É de se concluir com alguma facilidade que esses agrupamentos urbanos, os burgos, estão na origem do renascimento das cidades europeias.

Porém, um entrave ainda persistia para os burgueses e suas atividades. Era o fato de que os burgos, que depois se tornam cidades, estavam dentro das propriedades dos Senhores Feudais, que exigiam pagamento de impostos e determinavam leis e administração dos mesmos. Com isso, os burgueses passam a se organizar para conseguirem autonomia em relação aos Senhores Feudais.

Este processo de luta pela independência das cidades ficou conhecido como movimento comunal, e ocorreu basicamente dos séculos XI ao XIII. As cidades que conseguiam sua independência recebiam um documento denominado carta de franquia, onde ficava assegurado aos burgueses o direito de governo dessas cidades, estabelecendo administração, arrecadação de impostos dos habitantes e justiça próprias.

Ilustração 3: Repare no aspecto de fortaleza, característico das cidades da baixa Idade Média. Fonte:http://cidademedieval.blogspot.com/2008/11/assombrosa-e-deleitvel-desigualdade.html



Com as cidades constituídas e livres dos Senhores Feudais, a burguesia passa a colocar em prática os mecanismos que asseguravam maior dinâmica para o comércio.

Criam-se instrumentos como casas bancárias, letras de cambio, associações para defesa da concorrência estrangeira, chamada de guildas e também o trabalho assalariado, cada vez mais necessário para atender um mercado consumidor que não parava de crescer. Importante destacar que, na luta da burguesia pela liberdade das cidades, em muitos casos estes recebiam apoio importante de outro personagem que também pouco a pouco ia retomando seu poder: o rei.

3 HUBERMAN, Leo. Historia da riqueza do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. p. 30.

O nascimento de uma nova economia - parte 2 de 4

O nascimento de uma nova economia - parte 2 de 4

A razão (de ser) dos carneiros é fornecer leite e lã; a dos bois é lavrar a terra; e a dos cães é defender os carneiros e os bois dos ataques dos lobos. Se cada uma destas espécies de animais cumprir a sua missão, Deus protegê-la-á. Deste modo, fez ordens, que instituiu em vista das diversas missões a realizar neste mundo. Instituiu uns os clérigos e os monges para que rezassem pelos outros (...). Instituiu os camponeses para que eles, como fazem os bois com o seu trabalho, assegurassem a sua própria subsistência e a dos outros. A outros, por fim, os guerreiros, instituiu-os para que (...) defendessem dos inimigos, semelhantes a lobos, os que oram e os que cultivam a terra. 1

Quando não influenciava e controlava pelos meios de dominação ideológica, a Igreja lançava mão de instrumentos violentos e coercitivos. Em 1231 criou o Tribunal do Santo Oficio, também conhecido como Santa Inquisição, que prendeu, interrogou, torturou e queimou vivas milhares pessoas que praticavam rituais considerados hereges ou mesmo as que não concordavam com a forma de pregação, orientação espiritual e comportamental dada pelos religiosos católicos. 2

A partir do século XI findaram-se as invasões bárbaras. Isso, combinado com aumento da produção agrícola, graças ao melhoramento das técnicas e melhor aproveitamento das terras com drenagem de pântanos, possibilitou um crescimento demográfico significativo no período, o que demandava a necessidade de um sistema que melhor distribuísse os produtos dentro e fora dos feudos.

Começa-se a produzir excedentes agrícolas e animais, o que estimula alguns servos a levarem seus produtos para serem trocados em feiras formadas normalmente nos mansos senhoriais, que, por questões de segurança, se organizam em torno dos castelos de seus Senhores Feudais. Com o passar do tempo e com a necessidade de agilizar e facilitar essas trocas, as moedas voltam a circular e pouco a pouco elas vão retomando sua importância, se tornando meio de riqueza e substituindo a terra (feudos) como instrumento de diferenciação e ascensão social. A esse processo interno, que podemos denominar de renascimento comercial, soma-se um importante elemento externo que contribuiu decisivamente para que o comércio voltasse a ser elemento fundamental na distribuição de mercadorias na Europa: as Cruzadas.

No final do século XI, os turcos muçulmanos tomaram Jerusalém, cidade santa para a Igreja Católica, proibindo a peregrinação de cristãos até o chamado Santo Sepulcro. O papa Urbano II convoca então, no ano de 1096, a nobreza cristã para expulsar os muçulmanos de Jerusalém e retomar o controle da cidade. A guerra entre a nobreza cristã europeia contra os turcos muçulmanos, invasores de Jerusalém, foi denominada de Cruzada.

Foram ao todo oito cruzadas, a última acabou em 1270. Do ponto de vista militar, elas resultaram em estrondoso fracasso, vitimando milhares de nobres que abandonaram seus feudos e jamais voltaram. No entanto, para o comércio, as cruzadas foram importantíssimas pois reabriram antigas rotas comerciais, antes dominadas pelos árabes. Além disso, as cruzadas foram responsáveis por introduzir em território europeu produtos orientais, chamados de especiarias, que eram trazidos pelos cruzados sobreviventes e que, rapidamente, caíram no gosto da população e passaram a ser disputadas e cobiçadas pelos comerciantes, tanto locais quanto itinerantes.


Ilustração 2: Nobres Lombardos sendo abençoados para lutar na Primeira Cruzada. Fonte: http://todopera.wordpress.com/2009/12/24/jueves-24-de-diciembre-2009/

1 Bispo Eadmer de Canterbury. Transcrito por FARIA, Ricardo. História para o Ensino Médio. Belo Horizonte: Editora Lê, 1988.

2 Importante destacar que a Inquisição também esteve presente no Brasil no período colonial. Embora não com tanta força como na Europa, mas ocorreram, principalmente no Nordeste perseguições aos judeus e julgamentos de comportamentos considerados anti-cristãos de muitos brasileiros e portugueses. Nota do autor.

O nascimento de uma nova economia - parte 1 de 4

O nascimento de uma nova economia - parte 1 de 4

Apenas com sentido didático, situamos o Feudalismo como um modo de produção que predominou na Alta Idade Média (entre os séculos V e X d.C.). Essa ressalva se faz necessária porque, a rigor, o sistema feudal, em determinadas regiões da Europa (como a Rússia, por exemplo) pode ser observado até o século XIX.

Resumidamente, o modo de produção feudal se inicia na Europa através da combinação de dois elementos centrais: colapso final do mundo Romano, ocorrido em 476 d.C. e a posterior ocupação da Europa Ocidental pelos chamados povos bárbaros germânicos (francos, anglos, godos, entre outros). Dessa forma, é possível concluir que o feudalismo sedimentou-se na fusão de elementos culturais, sociais, políticos e econômicos dessas duas tradições culturais: a romana e a dos chamados povos bárbaros.

A economia feudal era baseada quase que exclusivamente na exploração da terra, naquele contexto medieval chamado de Feudo. Neste caso, a produção era essencialmente agrícola e de pastoreio (criação de animais). Era auto-suficiente, ou seja, produzia-se apenas o necessário para consumo e pagamento das obrigações servis. Quando ocorria circulação de produtos, esta se dava através das trocas, já que não havia uso de moedas na maioria das regiões europeias.

Um feudo era normalmente uma gigantesca propriedade rural que tinha como dono um Senhor Feudal, que tanto podia ser membro do alto clero da Igreja católica ou um dos nobres, que eram descendentes dos chefes tribais bárbaros. Nesta estrutura feudal, os camponeses eram chamados de servos em função da relação de dependência que se estabelecia com o seu Senhor.

Eram os trabalhadores do sistema e sua exploração era um dos elementos que dava status e poder aos Senhores Feudais. Os servos tinham que trabalhar nos feudos para o sustento de sua família e também para pagar suas obrigações ao senhor feudal, que, diga-se de passagem, eram muitas e sua quantidade variava de feudo para feudo.

A sociedade feudal era estamental e estratificada, ou seja, não havia mobilidade social. Um servo, por exemplo, nascia e morria dentro da sua condição social, um trabalhador preso ao seu senhor e obrigado a pagar impostos e cumprir obrigações a ele até o final de sua vida.

Do ponto de vista político, o feudalismo se caracterizava por ser um sistema descentralizado, com poder total aos donos dos feudos. Isso quer dizer que um Senhor Feudal estabelecia sua própria justiça, seu sistema de arrecadação de impostos, e decisões de guerra e paz. Havia reis, mas seu poder era praticamente figurativo e não havia interferência destes na vida interna de cada feudo.

Observem abaixo, esquematicamente como se dava o modo de produção feudal.


Transformações sociais do século XVI ao século XIX

Introdução


O período que analisaremos, um recorte histórico que se inicia no século XVI e segue até o século XIX, se constitui, para muitos historiadores, como uma das etapas mais importantes de nossa história. Isso porque estes séculos cobrem a gestação, o desenvolvimento e consolidação de um modo de produção, o capitalismo e da classe social que moveu sua formação, a burguesia, que estão vigentes e hegemônicos até os dias presentes.

Foram séculos em que praticamente todas as áreas do conhecimento, regimes políticos, formação de nações, conquistas coloniais, desenvolvimento cultural, surgimento de novas classes sociais, aprimoramento de técnicas de produção, comunicação e meios de transporte e até diferentes formas de adoração religiosa, seguiram o rastro da circulação de mercadorias e da busca incessante pelo lucro, categorias básicas do modo de produção capitalista.

Isso não significa dizer que dinheiro, salário ou comércio sejam novidades a partir do período que será abordado em nosso curso. Pelo contrário, desde a Antiguidade até o século V de nossa era, egípcios, gregos e romanos, entre outras importantes civilizações, já tinham no comércio uma das mais destacadas atividades econômicas. No entanto, não era a moeda o elemento que diferenciava os grupos sociais, o que determinava essa diferenciação eram as conquistas territoriais, ou ainda, as revoltas ou derrubadas de governantes.

Em outras palavras, não era o dinheiro o elemento fundamental do modo de produção dessa época e sim a conquista, propriedade e exploração da terra, controlada pelo Estado, no caso das civilizações orientais (Egito, Mesopotâmia, entre outros) ou baseado na ampla utilização da mão de obra escrava, casos das chamadas civilizações clássica (Grécia e Roma).

Estudaremos mais adiante como o capitalismo foi gestado na baixa Idade Média (séculos XIII a XV) a partir da decadência e ineficiência do modo de produção feudal presente até então. Analisaremos de que forma o capital torna-se uma estrutura sócio-econômica que interferiu diretamente na constituição de novos olhares para a produção artística, maneiras de se pensar o mundo e ruptura com o modelo religioso imposto pela Igreja católica, através do Renascimento Cultural, bem como o humanismo dele advindo e da Reforma Protestante, respectivamente.

Veremos também como o capital determinou paulatinamente as mudanças nas estruturas de governo, antes absolutistas, baseados na aristocracia feudal e depois liberal-democrática, capitaneada pelos interesses da burguesia.

Mais ainda, refletiremos sobre a maneira com que o pensamento vigente até praticamente o fim da Idade Média, ditado e fundamentado pela influência religiosa, pouco a pouco foi adquirindo nuances individualistas e baseadas no uso da razão, na liberdade de comércio, na tolerância religiosa e no desenvolvimento científico, o que foi essencial para o aprimoramento das técnicas de produção e aumentou ainda mais a oferta de mercadorias para uma população cada vez mais crescente.

Enfim, o objetivo central das páginas seguintes será o de refletir sobre as condições que elevaram a burguesia, surgida como um simples agrupamento de feirantes medievais, a se constituir na classe social dominante, que dita o pensamento e as práticas do mundo contemporâneo